Além de Trump: Como a Privatização da Presidência por um Bilionário Afeta nosso Alimento?

Ahna Kruzic and Eric Holt-Giménez | 01.21.2017

This article was originally published in English. You can read this article in Spanish here. This Portuguese translation is by Juliana D. Ricarte-Covarrubias.

Donald Trump é uma desgraça monumental. Mas este não é o ponto – a crise política e económica que o elegeram é o ponto. Nós tivemos muitas destas desde 2008, mas precisamos perguntar: o que esta crise significa? Porque uma crise é uma coisa terrível de se disperdiçar.

Este país – dentre as primeiras democracias liberais do mundo – foi fundado por uma elite colonial que, a princípio, foram os próprios a dirigir a nova república. Com o tempo, eles repassaram o gerenciamento para políticos prifissionais. Enquanto a missão da classe política profissional é representar democraticamente os cidadãos dos Estados Unidos, seu trabalho é mediar as contradições entre os interesses de negócios da elite do país e as necessidades básicas dos outros 99,9% do país. A presidência Trump é um forte sinal de que este arranjo não está mais funcionando.

As últimas décadas de neoliberalismo expuseram o lado negro da democracia liberal, destruindo nao apenas as economias locais, mas a legitimidade social tanto dos partidos Democratas quanto Republicanos. No vácuo da liderança política, um dos membros da classe dominante com menos experiência política (e mais questionável financeiramente) rangeu na liderança com base em pura algazarra. Enquanto os cabinetes presidenciais tipicamente têm uma porta rotatória entre negócios e governo, com uma rede que vale mais do que um terço de todas as Américas combinadas, este cabinete indica que Trump está privatizando a presidência ao colocar o país sob a direção de gerentes bilionários.

Gerenciamento bilionário direto reflete o colapso global generalizado do modelo político que tem mantido o capitalismo pelos últimos 200 anos. A captura da Casa Branca por bilionários não é um reflexo do poder da elite, mas de sua fraqueza. Não que eles não possam mostrar seu peso – Trump é bom nisso. Mas Trump representa uma quebra na ordem política dos ricos, não sua consolidação. Podemos esperar que ele e seus camaradas de gabinete mantenham o manto geral de neoliberalismo, enquanto buscam por vantagens competitivas contra seus competidores – outra coisa que eles fazem bem.

O que Trump e Companhia não são bons é em manter a missão de democracia e o trabalho de manter a massa quieta enquanto as elites corporativas saqueam a economia. Espere muita ira, nativismo, intolerância e indignação conforme o “neoliberalismo camarada” leva nossos sistemas de saúde, moradia, trabalho, energia, ambiente – e nossos sistemas alimentares ao limite.

A alimentação ocupa um papel especial nesse drama histórico, porque o modo como produzimos e consumimos alimento determina como a nossa sociedade se organiza. Entretanto, o modo como nos organizamos social e politicamente também determina a maneira como produzimos e consumimos alimento. Nossos sistemas alimentares são recipientes de poder económico e social inigualáveis. E suas implicações são profundas: nossos sistemas alimentares são fontes centrais na transformação sistémica social, política e económica. Estes são os motivos pelos quais nossos sistemas alimentares estão em disputa:

  • Desde já, Monsanto e Bayer – aguardando Trump tomar o poder – estão se preparando para a aprovação da maior fusão na história do agronegócio, dando a estas um terço do mercado global de sementes e um quarto do mercado global de agrotóxicos. Quando tal consolidação ocorrer, Syngenta, DuPont, Dow e ChemChina seguirão o mesmo caminho com juncos de empresas.
  • O desmantelamento de programas nutricionais, de assistência alimentar e segurança alimentar comunitária, que serão gerenciados pelo novo Secretário da Agricultura, Sonny Perdue, um comerciante global, ex-governador da Geórgia e apoiador da Confederação. O queridinho da indústria avícola irá proteger arranjos feudais entre fornecedores como Perdue Farms e Tyson Foods, e os produtores avícolas e de suínos irão falir sob contratos corporativos.
  • Um terço dos 5 milhões de trabalhadores rurais nos EUA são indocumentados, assim como nossos mal-remunerados trabalhadores no setor dos restaurantes. Eles estão se preparando para a deportação em massa que Trump prometeu.
  • Da semente ao garfo, o sistema alimentar está sendo preparado para uma intensificação e consolidação corporativa ainda maiores com Trump. Nanotecnologia e biologia sintética ultrapassaram em muito o uso de tecnologias naturais em sementes geneticamente modificadas, permitindo a manipulação direta de DNA sem ter que recorrer a transferências genéticas caras e imprecisas. Qualquer um pode baixar um “mapa genético” da internet e fazer manipulação direta de DNA, modificando vias metabólicas para expressar qualquer característica fenotípica, não apenas para produzir sementes, mas também para fazer qualquer forma de vida.
  • Corporações estão investindo em “agricultura digital”, na qual quantidades massivas de informações sobre ambiente, clima, solo e cultivares são cuidadosamente registrados via satélite, e então analisados e vendidos de volta aos agricultores. Todas as principais corporações na cadeia alimentar, desde Monsanto, John Deere, e Cargill, até Nestlé, Walmart e Amazon estão utilizando estes grandes sistemas de informações.
  • O controle integrado de informação genética e ambiental aumente a tendência de consolidação corporativa e da terra. Amazon, em guerra aberta com o modelo Walmart, está planejando vender alimentos através de grandes centros de fornecimento a serem entregues por taxis de comida, e drones lançados via aérea a partir de enormes “dirígiveis alimentares”. Sua nova loja Amazon Go será completamente automatizada, permitindo que consumidores caminhem pela loja, selecionando iténs e saiam sem ter que passar pelo caixa. Um aplicativo em telefones celulares do tipo smart phones irá registrar a compra e cobrar seus cartões de crédito (tanto pela criação de novos empregos…)
  • Toda a pressão financeira e estrutural desse setor que gera trilhões de dólares leva a formas ainda maiores de produção. Sementes, insumos, maquinarias, financiamentos, seguros e informação em massa estão sendo produzidos em volumes cada vez maiores para uniformizar os produtos aos revendedores – os monopólios estão ainda maiores e mais concentrados. Para participar nas novas correntes de valores alimentares, os produtores terão que refinanciar em massa. De onde conseguirão o dinheiro para tal? Da terra.
  • Bancos agora oferecem workshops para orientar os produtores a respeito de vendas e financiamento da terra, como medida de negócios para recapitalizar sua operação. O valor de troca da propriedade agrícola nos EUA está ultrapassando seu valor de uso, tornando-se “como ouro, com lucro”.

Agora ‘e a hora para o movimento alimentar avaliar a subida de Trump ao poder como uma reflexão do que está errado com nossos sistemas politíco e econémico. Sim, Donald Trump é uma agressão grave aos direitos humanos e à decência básica – mas o problema nao está nele. Está no sistema que permitiu que Donald Trump, e outros como ele, continuassem a servir seus próprios interesses. Enquanto movimento alimentar, nó.s precisamos avaliar as formas com as quais nossas lutas por segurança alimentar, justiça alimentar e racial, justiça no campo, assim como soberania económica local são conectados estruturalmente com o sistema alimentar capitalista.

Este sistema não está quebrado – está funcionando exatamente como foi criado para ser: consolidando a riqueza e poder e repassando os custos económicos e ambientais para a sociedade. Sob a administração Trump, temos a oportunidade de refletir profundamente, e de lutar não apenas por mercados de agricultores, segurança alimentar, equidade racial ou justiça no campo – mas juntos, por transformação, por um sistema completamente diferente construído para servir trabalhadores, agricultores, mulheres, negros e mais.

Nós teremos que lutar as mesmas batalhas que sempre lutamos, porém sob novas circunstâncias. A forma antiga de acionarmos, incluindo petições, cartas assinadas, esforços do campo-à-escola, hortas comunitárias e outras alternativas nao funcionam isoladas – não quando a elite corporativa não está apenas sendo representada em nosso sistema político, mas está se tornando o nosso sistema político e económico.

Quarenta e cinco por cento de nossos eleitores optaram por não participar em um sistema eleitoral que eles acreditavam que não envolveria suas realidades. Quando foi que a classe política e a classe dominante perderam sua legitimidade social? É tempo de unir esforços para construir um novo sistema.


Foto: Gage Skidmore.

Sugestão de citação:

Holt-Giménez, Eric e Ahna Kruzic. Além de Trump: Como a Privatização da Presidência por um Bilionário Afeta nosso Alimento? Food First/Institute for Food and Development Policy, January 20th, 2017. https://foodfirst.org/beyondtrump/.